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Biografia

Contar a própria história é difícil porque a vida pode ter vários começos. Lembro o primeiro dia de aula da primeira série, hora da chamada, a professora disse Leonardo, ninguém respondeu, ela repetiu Leonardo, aquele silêncio, daí ela leu o nome todo e me dei conta de que o Leonardo era eu, porque em casa até então só tinham me chamado de Junior, de Junico, de Nico. Depois tinha 22 anos e era tardinha, décimo sexto andar de um apartamento na Duque de Caxias, em Porto Alegre, vista pro Guaíba. 22 é uma boa idade pra se nascer. A gente estava estudando, a gente estudava muito naquela época, psicanálise, eu disse pro meu amigo: me alcança um cigarro. Tossi, fiz bastante fumaça, Freud teria rido de mim, Freud estava ali mesmo, rindo de mim. Depois me acordei numa repartição pública em Santana do Livramento, a vinte metros da divisa do Brasil com o Uruguai, 25 anos, há menos de seis meses tinha acabado a faculdade de medicina, largado a psicanálise em nome da literatura, 25 anos, Técnico do Tesouro Nacional, tudo pela literatura. Um escritor tinha que pelo menos contar a própria história com início, meio e fim. Quer dizer, o fim é póstumo. Sempre tem uma parte que a gente perde.

lbrasiliense@uol.com.br