Fortuna Critica

Outras guerras (Luiz-Olyntho Telles da Silva)

Leonardo Brasiliense


OUTRAS GUERRAS
Luiz-Olyntho Telles da Silva
www.facebook.com/luizolyntho.tellesdasilva
Abril de 2026

Autor de sete romances, desde 2002, muitos deles premiados, Leonardo Brasiliense volta a nos surpreender, agora com o romance Outras Guerras.

Para não antecipar o conteúdo com spoilers, conto-lhes o que me surpreendeu na leitura.

Antes de tudo, sua composição. São trinta e cinco capítulos, todos eles numerados; menos um. O primeiro, à guisa de introdução, não leva número nenhum. Outros trinta e dois são encabeçados pelo número do dia do acontecimento, em relação ao...

Faço uma digressão: na titulação dos capítulos há ainda mais uma exceção. Dois deles levam por título a curva algébrica de quarto grau, descrita por Jacob Bernouilli, em 1694, a "lemniscata", conhecida como "símbolo do infinito". Esta fita com laço nos permite associar a eternidade à longa praia sulina, a qual, como o vento, é sem início nem fim. Assim, as cifras, alternadas entre as positivas e as negativas, formando analepses, compõem os capítulos que dizem do tempo presente e do passado.

A orelha do livro menciona três marinheiros, os protagonistas que, vindos de diferentes regiões do Brasil (uma metonímia do mundo), ao desempenhar uma função fundamental para a segurança dos navios, em alto mar, imaginam aí, no farol, um refúgio de suas guerras interiores.

Contudo, para a estruturação dessas guerras, há ainda os coadjuvantes (uso esses termos porque a narrativa é sempre cinematográfica): há as mães, saudosas dos filhos; há a meia-irmã de um, um pouquinho mais velha; há a loira do bar, com sua filha adolescente, cujas ancas, mais uns dias já serão as de uma mulher; um casal de velhos, obrigados a recuar; os cachorros; uma raposinha, a qual me fez lembrar do provérbio italiano mencionado em "La Traviata", de Giuseppe Verdi, "la volpe lascia il pelo, non abbandona il vizio"; um carcará, o pequeno falcão o qual, na canção de Chico Buarque, "pega, mata e come"; e também um passarinho, um papa-capim que se recusa a fugir da gaiola. E, além de tudo, a onipresente areia, sempre disposta a cobrir tudo. São relações que fazem "o coração bater forte, e rápido", nos diz o autor no início do capítulo marcado pelo primeiro "infinito". E é verdade, a representação gráfica dos movimentos dos capítulos, subindo e descendo no tempo, fazem mesmo pensar em um cardiograma agitado com os altos e baixos da despolarização dos átrios e dos ventrículos. Batem forte os corações dos personagens, batem forte os corações dos leitores.

O sem fim e sem início da praia é chamado, aí, "abismo horizontal". Diferente do "abismo" de Gustavo Corção, com citações de Machado de Assis, Tolstói, Voltaire e Santo Agostinho, no qual o homem, trágico, cai e morre, aqui, tendo por pano de fundo apenas o rock "Olhar 43", de Paulo Ricardo e Luiz Schiavon (1985), e "Still loving you", do grupo Scorpions (1984), o homem some. Seja como uma pandorga que escapa da mão, azul a fora, arrastando consigo seu enorme cordão umbilical, ou como os cachorros... que talvez voltem.

Metáforas, sempre metáforas.

Uma leitura plena de surpresas, sensibilidade e sofisticação.

 

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