Fortuna Critica

Fantasmagoria à beira-mar (O Globo)

Leonardo Brasiliense


Fantasmagoria à beira-mar (O Globo)
Mateus Baldi*
O Globo, Rio de Janeiro, 06/06/2026

No extremo sul do Brasil, três militares tomam conta de um farol. Estão em um lugar inóspito, onde o vento e a areia castigam a paisagem, e o isolamento cria uma pátina de insanidade que pouco a pouco parece contaminá-los. É a partir desses filtros – certo limite entre real e imaginado e a alta voltagem masculina – que o gaúcho Leonardo Brasiliense constrói "Outras guerras".

Povoado por um trio de protagonistas sempre mediados pela tensão, o romance depende muito da atmosfera construída, o que implica um duplo aspecto. Se por um lado a aridez em capítulos curtos convida a um ritmo bem equilibrado entre agilidade e contemplação, por outro parece constituir uma camisa de força ao redor de Ariel, Agostinho e Skawinski. Os dois primeiros, poderíamos dizer, funcionam como polos opostos nas quase 130 páginas – Ariel é jovem, está naquele ambiente pela primeira vez, não fuma, não bebe e é umbandista; Agostinho, carrancudo, sempre retorna à fila de voluntários para servir no farol. Resta a Skawinski existir como meio do caminho aos companheiros.

De todas as três tramas que se encontram à beira do mar, a do Polaco talvez seja a mais bem-sucedida. Tanto ele quanto Agostinho, de quem é amigo fora do expediente, se veem orbitando mulheres de cuja alçada não conseguem escapar. Mas enquanto Agostinho tem sua rudeza contraposta a um suposto ato terrível cometido enquanto estava alcoolizado, o que o motiva a sempre voltar ao farol para "pagar", Skawinski está de fato enredado nas armadilhas do desejo pela meia-irmã. É algo irônico, portanto, que diante de tamanha implosão das estruturas, aqui representada pela família, seja ele o fiel da balança. Como resultado, é de sua perspectiva que Brasiliense abre as brechas na aridez.

A cena em que Skawinski criança vê a irmã sumir e reaparecer em meio aos lençóis no varal instaura uma dinâmica suave, diferente daquela em que Ariel observa as coxas da mulher que vai parar no farol com o namorado. Ao inserir pequenas franjas de ternura no texto, "Outras guerras" revalora o próprio peso enquanto aponta que há algo digno de nota ocorrendo no subterrâneo desses homens, sismos íntimos que convergem para o modo como suas masculinidades ? e, consequentemente, suas formas de estar no mundo ? foram erigidas.

Existência truncada

Faz sentido, nesse país do fim do século XX, que Agostinho entre no mar como o emblema de um tipo masculino já antigo e desbotado. Ou que um pai proíba que a filha, viajante, retorne grávida para casa. Em última instância, em maior ou menor grau, cada homem é o tensionamento dos outros, acionando e contrabalançando suas forças conforme a necessidade. Nos diversos níveis das relações com mulheres, passando pelas consequências de um desaparecimento, o que Brasiliense coloca em jogo é uma ética masculina, um modo de viver em sociedade que carreia consigo uma miríade de perdas e danos que nem todos estão dispostos a suportar.

Nesse sentido, a existência truncada a que os três protagonistas estão submetidos se vê refletida na linha do tempo partida. É pelas idas e vindas que aos poucos conseguimos montar o mosaico que desvela algo muito próximo da tragédia pessoal, uma caminhada curta ao limite do abismo de suas diversas condições masculinas. Nos melhores momentos, "Outras guerras" lembra a sobriedade elegante de "Roupas sujas", romance de Brasiliense publicado em 2017, embora em voltagem menor, contaminada por certa imposição de fantasmagoria ausente nos irregulares "Peixe estranho" e "Eu vou matar Maximillian Sheldon".

É pena, contudo, que o esforço da narrativa vagarosa resulte em um excesso de elucidações, diminuindo a força das ausências construídas. Ao passo que a trama de Ariel mantém a suspensão coerente, os últimos capítulos acabam por solapar a dimensão que Clarice Lispector parece convocar na epígrafe, e o resultado das respostas, luz excessiva, mascara o que vinha sendo uma boa dinâmica entre claro e escuro. Quando tudo está dito, então, só resta ao leitor o pouco trabalho de concatenar as informações, em lugar do que era (bem) exigido ? montar e desmontar o mosaico dessas três figuras que vão embora como areia no vento.

*Mateus Baldi é escritora e jornalista. Autora de "Os anos de vidro" (Nós, prêmio APCA 2025), é mestre em Letras pela PUC-Rio.

 

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