Fortuna Critica

Um contista e seus talentos


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Luiz Antonio de Assis Brasil
Expressão, Ano 3, n° 2, (Centro de Artes e Letras da Universidade Federal de Santa Maria/RS, jul/dez 2000)

Após um longo período de hibernação, o conto volta com força redobrada; entretanto, seu caráter é outro: se na década de 70 (em especial com os escritores mineiros) significava uma busca da identidade coletiva e vinha imerso na discussão de temas sociais aflitivos, agora o gênero curto adquire outro caráter: sem o tônus social ou político, volta-se para a interioridade humana, à busca dos conflitos permanentes do homem enquanto entidade metafísica e moral. Isso se opera em duas modalidades: por um lado, temos o conto que privilegia o individualismo tão ao gosto do pensamento neoliberal; por outro, temos o conto solidário, que recupera as vertentes humanísticas do Ocidente, responsáveis pelas obras-primas que tanto nos encantam.

Neste segundo viés situa-se o livro Meu sonho acaba tarde, de Leonardo Brasiliense Júnior.

Como livro de cariz antológico, a multiplicidade leva também à pluralidade de conflitos, de personagens, de temas. Sendo impossível tratar de todos os contos nesta breve resenha, verei em grandes linhas seus elementos de união.

Para já, a destacar um condicionante externo: a linguagem. Trabalhada com grande economia léxica, e vazada numa sintaxe por vezes surpreendente, mas nunca obscura, o texto prima pela sua eficiência e limpidez comunicativa. Nenhuma palavra sobra, nenhuma palavra falta. Toda palavra é necessária e suficiente. As frases encerram, na maior parte das vezes um ritmo de melodia. A experiência da leitura em voz alta comprovará.

No aspecto dos conteúdos e desenvolvimento das fábulas, observa-se aqui uma célere construção, resultando no efeito de que falava Edgar Allan Poe; isto é: depois da leitura de um conto de Leonardo Brasiliense Júnior, o leitor permanece com uma sensação única, impactante, quase tangível. Normalmente o efeito está no final, mas nem sempre. Está in fine, por exemplo e magistralmente (no caso, a hipérbole é verdadeira), no conto denominado As meninas. Isso referenda a afirmativa tão conhecida de Julio Cortázar que, usando a terminologia das lutas de box, disse que se o romance vence por pontos, o conto vence por nocaute. Agora: nem todo conto que se lê por aí possui a força para imprimir um nocaute, ou porque não são contos ou porque são contos mal-realizados. No caso de Leonardo, espere o leitor por alguns finais, e perceberá uma inquietante sensação de estranheza; será possuído pelo sentimento de que leu um bom texto, com todos os requisitos e artifícios da sedução literária.

Em outros casos, Leonardo escreve contos de clima, para usarmos uma nomenclatura atual. O que é um conto de clima? Trata-se de um texto ficcional em que todo o tecido narrativo inquieta (e não apenas o final); é no transcorrer da leitura que constatamos a existência de algo por detrás, como um rumor longínquo e surdo, algo que fala das entranhas e do submerso. Tal acontece em A raiva, no qual esse rumor é o da insanidade e da culpa; e essa culpa e essa insanidade perpassam todas as linhas, frases e palavras, desde a primeira. Imediatamente lembramos de Hemingway e sua teoria: o conto, tal como o iceberg, apenas mostra um sétimo de seu volume; o restante está oculto. Leonardo, nesta narrativa, sabe escamotear do leitor aquilo que verdadeiramente interessa, deixando que ele, leitor, o descubra. Sairá recompensado, diga-se, pelo arrepio que provoca a obra de arte bem-acabada.

A segunda parte do livro tem o nome de Corpos sem pressa. É curioso o jogo irônico do autor: as narrativas, aqui, têm muita pressa, e são movidas por um minimalismo radical: raramente ultrapassam 20 linhas. Pouco, podem pensar os leitores, mas é o que basta, digo eu que os li. Na sua exigüidade visual, por vezes discutem as questões mais importantes do ser humano, como a transitoriedade da vida, o que se vê em Quando cai o barranco. A mesma discussão está em Os trilhos . Percebam que o narrador não precisou de grandes fôlegos retóricos, dando-nos, em simplicidade e força, todo um pensar de transcendências. Vejamos agora o conto Os amantes; o tema é a descoberta da sexualidade infantil, mas isso se dá na inocência das palavras primeiras, a que se mistura algo de fantástico, como a nos dizer que as crianças, como também nós, adultos, compartilham, em seus próprios níveis, de todas as preocupações filosóficas que nos afligem e todos os espantos que nos esmagam.

Importante grifar, também, a força da solidariedade. O narrador torna-se cúmplice de suas personagens, e os leitores também. Todas elas acabam compreendidas e perdoadas, pois esse narrador lhes reconhece o pleno estatuto humano. Não há a apologia do egoísmo; ao contrário: percebe-se uma sólida compreensão dos valores que nos irmanam. Sou daqueles que pensam que a literatura, se não colaborar para um melhor trânsito de valores, não merece ser chamada por este nome. Nada de moralismos histéricos e dicotômicos, entretanto; Leonardo Brasiliense não alardeia sua preocupação com o outro: isso está presente em tudo o que escreve. Quem tem olhos para ver, que veja. E que assimile.

Proponho uma leitura de Leonardo Brasiliense Júnior: ninguém ficará indiferente, pois o que ele diz de forma pessoal, profunda, é de excelente literatura.

Tenho para mim - e a crítica assim pensa -, que estamos perante o autor de exceção, que com esse primeiro livro, dá o passo inicial e magnífico de uma jornada; e se pela largura do passo se mede a estatura, Leonardo Brasiliense Júnior significará um motivo de orgulho para todos nós.


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