Fortuna Critica

Um Jabuti para o miniconto



Marcelo Spalding
www.digestivocultural.com, setembro/2007

Há cerca de um ano um amigo da lida literária, amigo e grande escritor, Leonardo Brasiliense, me convidou para escrever a orelha de seu novo livro, que seria publicado pela 7 Letras. Exultei, seria minha primeira orelha, e comentei isso com ele, que insistiu dizendo que não poderia ser outra pessoa, já que o livro tratava-se de minicontos juvenis e meu estudo acadêmico, sobre minicontos, fora fundamental para seu trabalho. Escrevi três orelhas, ele escolheu uma e o livro saiu ainda no final daquele ano, um livro delicado, sóbrio, inteligente, um livro juvenil que transita sem dificuldade por pais e professores.

J√° √† √©poca fiquei com muita vontade de resenh√°-lo aqui para o Digestivo, cheguei a mencion√°-lo no artigo ¬ďPequena po√©tica do miniconto¬Ē, mas achei que n√£o caberia falar de um livro que, afora ser de um amigo, tinha minha singela participa√ß√£o na orelha. Mas agora as coisas mudaram e me sinto √† vontade: Adeus conto de fadas (7 Letras, 2006, 84 p√°gs.) acaba de ser escolhido o Melhor Livro Juvenil de 2007 pelo Pr√™mio Jabuti!

O livro √© uma reuni√£o de setenta e duas hist√≥rias com mais ou menos cem palavras (√†s vezes bem menos do que isso), forma ideal para uma gera√ß√£o que est√° sempre correndo, escreve blogs, assiste videoclipes e odeia coisas ¬ďenroladas¬Ē. Mas o que surpreende √© a explos√£o poss√≠vel a partir daquelas miniaturas, verdadeiras p√©rolas pequenas e valios√≠ssimas.

Dilemas muitas vezes vistos como banais pelos adultos s√£o levados a s√©rio ¬Ė sem perder o humor ¬Ė e as hist√≥rias deixam transparecer conflitos existenciais e sociais importantes e dif√≠ceis: a filha √© proibida de ir √† festa porque os pais j√° fizeram muita festa e sabem da bandalheira, a BV odeia o beijo mas adora ter se livrado do apelido, o menino cada vez mais quieto um dia descobriu que n√£o sabia mais conversar, a menina entra na farm√°cia sob olhar malicioso do atendente.

¬ďConstrangida¬Ē

¬ďO atendente da farm√°cia viu que eu entrei meio sem gra√ßa. Sorriu, malicioso. Eram dez da noite, e eu n√£o tinha cara de doente. Ele at√© olhou para a porta, como procurando mais algu√©m. Quando cheguei perto da g√īndola das camisinhas, o bobalh√£o desviou o olhar de mim, disfar√ßando muito mal. Fingiu que arrumava uns folders em cima do balc√£o, mas sempre com o sorrisinho idiota, que s√≥ parou, s√≥ se fechou quando pus na frente o pacote de fraldas.¬Ē

Como se percebe, Leonardo n√£o subestima a intelig√™ncia do seu leitor, utilizando com maestria a forma cl√°ssica do conto (hist√≥ria aparente/hist√≥ria oculta), ainda que numa forma em miniatura e para um p√ļblico jovem. Jovem porque os conflitos s√£o preponderantemente juvenis, e diga-se que o autor, casado, funcion√°rio p√ļblico, meio careca, mergulhou fundo nas revistas e assemelhados para tentar captar esse mundo sempre novo ¬Ė nenhuma juventude √© igual a outra. Mas h√° algo ali que vai al√©m da juventude e torna-se universal, o que inclusive me fez sugerir, na orelha, que os leitores emprestassem o livro para seus pais e pedissem para eles lerem algumas hist√≥rias, como ¬ďCasa limpa¬Ē, ¬ďPesadelos¬Ē, ¬ďFim de semana na praia¬Ē. Se inteligentes como o autor espera que o sejam, os pais tamb√©m v√£o entender seus filhos um pouco melhor.

¬ďFim de semana na praia¬Ē

¬ďO fim de semana estava √≥timo. A turma foi pra casa do Luca, na praia. S√≥ a galera, sem nenhum velho pra atrapalhar. A Vanessa ficou com o Daniel, com o Carlinhos e com o Luca, √© claro. A Morgana, s√≥ com o Daniel. Rolou de tudo, principalmente cerveja, uma montanha de latinha amassada dentro da churrasqueira. A noite era dia e o dia era noite. E que praia que nada! Quem se interessava por sol e areia? Foi um fim de semana 'de arromba', como diriam os meus pais, porque na √©poca deles j√° era assim... e acho que foi por isso que me fizeram ficar em casa.¬Ē

Leonardo Brasiliense, nas entrevistas para a m√≠dia local, revelou-se evidentemente surpreso com o Pr√™mio. Primeiro por n√£o ser um autor famoso nacionalmente, nem regionalmente (s√≥ para se ter uma id√©ia, o segundo lugar em sua categoria foi o tamb√©m ga√ļcho e imortal Moacyr Scliar). Depois, e isso ele tem enfatizado, por ser o miniconto um g√™nero novo, pouco conhecido e pouco estudado.

N√£o √© exagero, dessa forma, dizer que este Jabuti √©, para o Leonardo, em primeiro lugar, a consagra√ß√£o merecida de algu√©m que quase anonimamente escreve, l√™ muito, discute com os amigos; √© um pr√™mio para a juventude inteligente, que saber√° apreciar as pequenas p√©rolas, mas √©, tamb√©m, um pr√™mio para o miniconto enquanto forma, mais do que enquanto g√™nero, pois n√£o foi na categoria ¬ďConto¬Ē que o premiaram, foi na categoria Juvenil. Ser mini, desta forma, n√£o √© um fim em si mesmo, e sim uma estrat√©gia est√©tica do autor para fazer fic√ß√£o, seja ela er√≥tica, metaling√ľ√≠stica ou infanto-juvenil.

Agora muitos correrão para o site do Leonardo a fim de conhecer seus outros minis, inéditos, quem sabe uma editora comercial finalmente procure o autor e trate-o como merece um escritor com sua qualidade, mas, acima de tudo, aquele apreciador da literatura que escreve suas historinhas, escreve timidamente seus minicontos, verá valorizada sua produção e assim, aos poucos, se criará uma verdadeira linhagem de minis em nosso país, como já há nos países de língua espanhola. Eis o peso de um Jabuti.

 

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