Fortuna Critica

Bom livro e uma estreia matadora

Leonardo Brasiliense


Cassionei Niches Petry, em Pedra e Vidraça
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11/04/2019

Leonardo Brasiliense √© um artista inquieto. Al√©m da literatura, tem um projeto de roteirista que vem dando bons resultados e tamb√©m pratica a fotografia, sempre com um olhar peculiar para os objetos, paisagens e pessoas retratadas. Longe das redes sociais (posi√ß√£o que invejo nele), a dedica√ß√£o √†s letras resulta em obras premiadas, do conto ao romance, passando tamb√©m pela literatura voltada para o p√ļblico mais jovem. J√° resenhei por aqui seu romance "Roupas sujas" (Companhia das Letras), narrativa sobre a qual fiz algumas ressalvas, mas que alcan√ßou aplauso quase un√Ęnime da cr√≠tica.

Essa vontade de experimentar, que é característica de Leonardo, fez com que ele publicasse seu recente livro por uma editora estreante, a Coralina, que tem como uma de suas cabeças outro artista que não se acomoda, o Cláudio B. Carlos, que gentilmente me enviou em primeira mão uma versão em PDF da obra às vésperas do lançamento, o primeiro da editora, e que furou minha fila de leitura.

"Eu vou matar Maximilliam Sheldon" tem 128 p√°ginas e 10 contos que comprovam a m√£o firme de Leonardo Brasiliense no g√™nero e mostra o trabalho competente da estreante editora, num trabalho gr√°fico lindo de se ver e que simboliza o tom sombrio e estranho das hist√≥rias. A primeira delas, ¬ďCafezinho e castigo¬Ē, t√≠tulo claramente inspirado em Dostoi√©vski, √© uma boa porta de entrada, pois o enredo inquieta o leitor e mais sugere do que revela, recurso importante que √© o tom das demais narrativas. O personagem, com o curioso apelido de Cavaquinho, sai da casa de sua m√£e, numa cidadezinha do interior, aparentemente depois de mat√°-la. Vai visitar um velho amigo que estaria trabalhando na ag√™ncia de Correios local, mas n√£o o encontra. A partir da√≠, muitos fatos estranhos acontecem e n√£o sabemos se s√£o fruto do sobrenatural ou do acaso.

Outros contos tamb√©m ficam no limiar do fantasioso e da realidade. Pode-se acreditar na quiromante do conto ¬ďS√°bado √† noite¬Ē, conto em que aparecem cenas do cotidiano dos moradores de um bairro pobre? Ser√° mesmo que o marido do conto ¬ďMorrer aos poucos¬Ē desapareceu estranhamente dentro da pr√≥pria casa? E o vendedor de ma√ß√£s maltrapilho realmente v√™ o futuro em ¬ďNa frente da casa tinha um vidente¬Ē?

H√° contos tragic√īmicos, como ¬ďQuerubins¬Ē, e experimentais, como ¬ďUma vida ou mais¬Ē, composto por um di√°rio, mas cujas entradas n√£o aparecem na ordem cronol√≥gica. A porta de sa√≠da √© o conto que d√° t√≠tulo √† obra e √© inspirada numa m√ļsica lado B do segundo disco do Ultraje a Rigor, banda de rock dos anos 80, em cujo enredo, o protagonista, ao contratar os servi√ßos de um detetive, come√ßa a achar estranho que ele se torna o alvo das investiga√ß√Ķes, tudo no mesmo tom debochado das letras do Roger, l√≠der do Ultraje.

Mais um bom livro do Brasiliense (que √© ga√ļcho) e uma boa estreia da editora (tamb√©m ga√ļcha), que homenageia no nome uma grande poeta (que era goiana). Vida longa √† Coralina!

 

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